Marieta Severo sobre a Intervenção no Rio: “Sei que meu neto pode levar uma incerta por ser negro.”
12/03/2018 15:42 em Cidadania

“Quando veio a intervenção federal agora (no Rio), circulou pela internet um aviso para os negros andarem com documento. A gente falou para ele: ‘Chiquinho, vê lá, você tem que andar com documento.” – Marieta Severo

Em entrevista ao Estadão:

Recentemente, um falso texto com críticas a Lula atribuído a você circulou nas redes. Você vai processar quem fez isso?

Não sou do mundo virtual, então não sei se vou falar bobagem. No Facebook, você chega muito rápido (a quem fez a postagem). Minha família toda, por exemplo, processou uma pessoa que falou que éramos uma família canalha, e ganhamos. Ele diz que a gente é figura pública, então pode falar o que quiser. Não, não é assim não. A gente tem direito de defender a nossa dignidade. Esse outro caso (do falso texto) parece que saiu de algum Insta, de alguém que é mais difícil de rastrear. Mas (processar) é a única possibilidade que tenho de diminuir um pouco o dano interno que essas coisas causam. Chamar minha família de canalha é uma coisa que me deu uma dor inenarrável. Minha família é muito correta, então é inadmissível que uma pessoa fale isso. Então, processar é quase que um alento que você cria para não ficar impotente completamente, não ficar à mercê. Essa pessoa escreveu isso, ela é responsável pelo que escreveu.

Então, vocês ainda estão indo atrás do autor desse texto?

Essas coisas são demoradas, porque você tem que contratar uma firma que vai rastrear. Não me apresso, é só a pessoa saber que a gente vai atrás. Não pode escrever e assinar por mim uma coisa que eu não disse, que não é minha. Nem comigo nem com ninguém.

Você vê retrocesso na sociedade hoje?

Sim, é nítido. O que sei é que as coisas são cíclicas, vai para frente, vai um pouco para trás. Até porque essa memória fica nas pessoas de uma maneira ou de outra. As conquistas sociais, de comportamento. Tira a lei que foi criada, acaba aquele benefício, vota no não sei o que lá – dá o maior medo, porque eles votam coisas que a gente nem sabe. Então, eles vão desmontando as conquistas, mas o que me dá alento é que as coisas que estão plantadas vão ressurgir em algum outro momento. Você não apaga. Não estou só falando no sentido social, das conquistas de comportamento, das mulheres. As mulheres, meu Deus, que retomaram o movimento feminista, essa garotada, fico babando de alegria. Porque tinha uma época que era cafona ser feminista: ‘mulher é contra o homem’. Não é contra, não, entende direito qual é o discurso.

(…)

Avançou-se muito no debate sobre o racismo, mas ainda há muito a conquistar. Chico Brown é negro. Como vocês lidam com a preocupação constante de que ele possa sofrer?

 

Quando veio a intervenção federal agora (no Rio), circulou pela internet um aviso para os negros andarem com documento. A gente falou para ele: ‘Chiquinho, vê lá, você tem que andar com documento’. Não me preocupei em falar para minha neta loira que ela tem que andar com documento. Isso é muito presente, e é muito preocupante, porque sei que ele pode levar uma incerta porque é negro com rastafári até a cintura. Falo disso e me sinto até ridícula, porque a quantidade de jovens negros morrendo… é uma geração inteira que está indo embora.

FONTE: DCM

COMENTÁRIOS
Comentário enviado com sucesso!